terça-feira, 8 de março de 2011

Cacos de vidro e vômitos na Orla

São sublimes os instantes em que nos esquecemos de morrer; esquecemos de nosso encontro irremediável; esquecemos das dores e todas as coisas verdadeiramente concretas que nos rodeiam, sem nos tocar, como se não fossem (concretas); como se fossem fantasmas.
“Os risos falsos da alegria”, as máscaras embriagadas serpenteando pela orla suja de lama, irrigada pela chuva serôdia, que nos persegue, funcionam como se fosse uma anestesia encravada na espinha dorsal do mundo; um instante congelado dentro de outro instante.
E é bom.
Até porque é para isso que serve este momento: para ser bom e nada mais (e nem precisa mais).
As marchinhas que embalam a todos, conduzindo para onde?
O álcool escondido nas latinhas, que animam a todos, conduzindo para onde?
A noite cai sobre nossas cabeças, leve como uma pluma, conduzindo para onde?
O ópio nos impede de olhar para o lado (pelo menos por esses dias), conduzindo para onde?
Tudo isso, bem em cima da orla morrendo de fome, chorando misérias e vivendo migalhas, conduzindo para onde?
Nossa sorte – ou azar, não sei – é que tudo acaba na Quarta-feira de Cinzas.

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