quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A chuva e os Finados (Enquanto)

Enquanto a periferia da cidade se dissolve em meio ao líquido fantasma que emana das necessidades sociais urbanas, numa dança de colchões, sofás, fogões e geladeiras, nadando pela manhã melancólica dos mortos, a Defesa Civil cochila sob edredons aquecidos de despreparo e medo de morrer de frio.
Enquanto a lama desenha rostos de perplexidade num mar cercado de tomadas elétricas e paredes derretidas, molhando até os ossos dos marinheiros, o avião cruza os céus do mundo levando gente que vai mentir na Europa.
Enquanto o plangente solilóquio dos sapos no brejo aumentava debaixo das catacumbas silenciosas e resfriadas, pelo receio de morrer com a boca cheia d’água, a ONG que cuida do sorriso das crianças que não existem enchia seus bolsos imprudentes e fedorentos a vela e incenso.
Enquanto a Transamazônica se gelatinava encaldando carros, motos e bicicletas, numa sepultura gordurenta de isolamento dos 33 cavaleiros do Apocalipse, o dinheiro passeia livre pelo ralo entupido da Criminosa Grota, que mata de vergonha e de cansaço.
Enfim: Enquanto a periferia do mundo real se desmancha, sufocando os pulmões e arregalando os olhos encharcados dos quase mortos, o céu ainda é de brigadeiro no cume da árvore de folhas caídas.

Um comentário:

Anônimo disse...

Gostei muito do texto que descreve de forma poetica a nossa realidae não tão poetica assim.