quarta-feira, 31 de março de 2021

(1964) “Não podemos esquecer e nem devemos perdoar”

 


Crianças torturadas;

Ratos na vagina de mulheres;

Estudantes desaparecidos;

Sindicalistas mortos;

Jornalistas assassinados;

Dívida externa em patamar astronômico;

Abismo social institucionalizado.

O Golpe militar de 1964 foi uma mancha na nossa história sim!

Não há o que comemorar...“Não podemos esquecer e nem devemos perdoar, não! Eu não anistiei ninguém!” (Renato Russo)

Deixamos esse pequeno registro em nome dos sem nome, dos túmulos sem corpos, das famílias destroçadas, dos camponeses mortos e torturados no Araguaia; em nome do meu saudoso amigo Paulinho Fonteles, que foi chutado pelos coturnos covardes, ainda dentro do ventre materno, porque “filho de comunista não merece nascer.


(Chagas Filho)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sobre nossa Constituição e a prisão do deputado marombado

 


Promulgada no final de 1988, a Constituição da República Federativa do Brasil se tornou o maior instrumento legal de redemocratização do Brasil. O seu artigo 53, que trata da imunidade parlamentar, cantado em verso e prosa pelos passadores de pano do deputado que foi preso (Daniel sei lá de quê), defende a imunidade parlamentar para externar opiniões, não para cometer crimes. Mas não é só isso.

Justamente por ser uma carta de libertação de 21 anos do regime militar (marcado por assassinatos e torturas contra aqueles que justamente lutavam pela liberdade de expressão), a Constituição criou o instituto da imunidade parlamentar exatamente para que os parlamentares pudessem criticar a ditadura e defender a democracia, sem correrem o risco de ser presos, torturados ou mortos. O que o tal deputado fez foi justamente o contrário: ele usou a imunidade dada a ele pela democracia para pregar contra esta mesma democracia.

Não vou entrar no mérito da prisão em flagrante, porque nossa legislação ampara, por exemplo, o flagrante continuado, que é a permissão da prisão – sem mandado – mesmo depois das 24 horas do delito. Não conheço o processo e não tenho formação acadêmica para dizer se é um caso de flagrante continuado ou não. Sei dos crimes, porque todos vimos os crimes praticados pelo parlamentar marombado. Quem assistiu ao vídeo – em que ele defende o fechamento do STF e a tortura contra os ministros - e não viu nada demais nisso, nem deveria ter lido esse texto até o final.

(Chagas Filho, jornalista e pedagogo)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

A normalização da barbárie e da corrupção


 

O Brasil está imerso em um lamaçal de tragédias que nunca imaginaríamos estar. Mas o pior nem é a barbárie em si, mas os desdobramentos que a tornam invisível.

Quando nosso presidente responde que não é coveiro ao ser questionado sobre o amontoado de corpos gerados pelo coronavírus;

Quando nosso presidente manda os repórteres à “puta que pariu” e diz que vai enfiar latas de leite condensado no “rabo da Imprensa”;

Ou ainda quando dispara “Pergunte pra sua mãe”, ao ser indagado sobre casos de corrupção envolvendo sua família;

Quando ele faz tudo isso e as pessoas riem, aplaudem, gritam “Mito”, “Mito”, da mesma forma que os nazistas ovacionavam Hitler, chamando-o de “führer”;

Quando todos esses acontecimentos se expõem diante de nossos olhos, é sinal de que grande parte de nossa sociedade já não se importa mais com a corrupção, já não cultiva mais o respeito e a civilidade que deveriam nortear as relações sociais dentro de uma democracia, por mais pueril que ela ainda seja.

Todas as vezes que o presidente profere desrespeitos à honra alheia, aos mortos, ao povo pobre, eu não fixo minha atenção para o ato em si, mas procuro canalizar meu olhar para as reações do público e é isso que me preocupa.

No afã histérico de manter suas convicções, os fanáticos que ainda defendem o presidente a ponto de colocar o próprio esfíncter na reta, são capazes de relativizar absolutamente tudo.

Professos cristãos são capazes de se tornar moucos para o palavreado eivado de turpilóquios do presidente, fruto de uma criação falha e uma vida desprovida de qualquer respeito ao outro.

Os “contra a corrupção” conseguem fazer malabarismos quase telecinéticos para justificar o saque aos cofres públicos, que acontecem de forma simplesmente escancarada.

Andei por um bom tempo arranjando intrigas nas redes sociais contra pessoas que espalham fakes, tentando mostrar que estavam sendo levados a erro. Inocência minha. Só depois de algum tempo percebi que os divulgadores de fakes sabem muito bem o que estão fazendo. Caiu a ficha!

O quadro é estarrecedor porque me leva a crer que o presidente não é um super vilão que controla a mente das pessoas, ele é apenas a representação de muitos de nossos irmãos brasileiros.

De tantas certezas que concretizei nesses últimos meses, foi uma dúvida que acabou me trazendo um certo alento: será que os fanáticos ainda são tantos assim ou eles são muitos apenas nas redes sociais? Espero que sejam mais barulhentos do que numerosos. O tempo dirá... se ainda sobrar alguma coisa do Brasil em 2022.

 

Chagas Filho, jornalista e pedagogo.

 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

A solidão sabotada

 











Quando alguém me abraça,

não é o abraço do outro que eu sinto.

É o meu corpo sendo abraçado.

 

Quando alguém beija minha boca,

não é a boca do outro que eu sinto.

É a minha boca sendo beijada.

 

Mas quando meu corpo entra no teu,

não é o meu corpo que eu sinto.

É o teu corpo no meu.

 

(Chagas Filho)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Flamengo 4x3 Bahia foi mais que um jogo de futebol

 


Não é sempre, mas algumas vezes um jogo de futebol funciona como uma representação da sociedade, uma encenação orgânica da vida, com seus heróis, seus vilões, conflitos de valores, derrotas, superações, frustrações... Assim foi Flamengo 4x3 Bahia na noite de domingo (20), pelo Brasileirão 2020.

O Flamengo jogou com um a menos durante 91 minutos (mais que o tempo regulamentar) e, mesmo assim, fez 2x0. Já o Bahia, que vive um inferno astral, conseguiu se superar e virar a partida em apenas 14 minutos do 2º tempo. E quando tudo parecia estar resolvido, o Flamengo empata e vira de novo com um gol improvável do atleta mais odiado pelos torcedores: Vitinho.

Vale destacar que o jogador expulso do Flamengo não foi qualquer um: foi Gabigol. É certo que o atacante não vive uma grande fase, mas será que alguém já esqueceu o que ele fez no ano passado? A expulsão por xingar o juiz (coisa que Gabi nega) ocorreu antes dos 10 primeiros minutos de peleja.

Enfim, só esses ingredientes já seriam suficientes para falar apenas de futebol aos amantes da bola. Mas não foi só isso. Teve mais, teve muito mais. O meia Gerson, do Flamengo, denunciou que o outro meia, Índio Ramirez, do Bahia, lhe dirigiu a seguinte frase: “Cala a boca, negro!”.

Apesar dos comentários racistas dos “especialistas” de rede social, essa frase não é uma mera constatação do óbvio, pois Gerson é negro, de fato. Pelo contrário: dizer isso é afirmar ao ser humano negro que ele é um cidadão de segunda classe e não tem direito a fala, justamente por ser o que é: negro.

O atleta se posicionou, danou-se, correu de um lado para o outro em busca de uma autoridade que pudesse leva-lo a sério. Mas o juiz da partida, que foi capaz de ouvir o xingamento de Gabigol, de costas, a mais de 10 metros de distância, ficou mouco na alegada ofensa racista, mesmo estando quase ao lado do acusado.

Pior nem foi isso, pior foi Gerson procurar apoio no treinador do agressor (Mano Menezes), como quem pedia ajuda, e este ironizar a acusação e ainda dizer que o flamenguista estava de “malandragem”.

O lado bom da história (para os flamenguistas) é que todo esse clima serviu de combustível para Gerson, que extraiu uma “beleza colateral” de toda essa doença chamada racismo. Ele jogou como nunca, contagiou os companheiros e conduziu o Flamengo a uma vitória memorável.

Depois que o jogo acabou, ao desabafar sobre o que ocorreu, ao tocar no assunto, ao meter o dedo na ferida, Gerson conquistou mais uma vitória, que vale muito mais do que três pontos. Para muitos, vale a luta de uma vida. (Chagas Filho)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Morte de Maura Dubal, na Vila Militar, completará um ano no dia 4


 

Daqui a pouco reportagem completa sobre o caso no programa “Fala Cidade” (SBT canal 26) e também no jornal CORREIO amanhã (17) e portal Correio de Carajás.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

O dia em que fui "xingado" de "discípulo de Paulo Freire"

 

Durante um acalorado debate político ontem à noite, em um grupo de WhatsApp, alguém decidiu me ofender e disse a seguinte frase: “Você deve ser discípulo de Paulo Freire”.

Me senti tão honrado e feliz porque não havia nem tocado no nome de Paulo Freire durante o embate, mas a pessoa que buscava me desqualificar se lembrou do nosso patrono da Educação. Revelou por mim o mesmo ódio que revela por Freire, algo comum para os que tratam a ignorância como capital político.

Nem sei se tenho o direito de ser considerado discípulo de Freire, afinal estamos falando de uma referência mundial na área da Pedagogia.

Confesso que dormi feliz.